Pular para o conteúdo

Assessoria de investimentos é de graça? Onde está o custo que você não vê

Por Redação Avaliarei Atualizado em 4 min de leitura Metodologia

Abra o site de alguns dos maiores escritórios de assessoria do país e você vai ler que o serviço é gratuito. Não é. A assessoria não cobra boleto, mas é paga com dinheiro que sai da sua carteira, por dentro dos produtos. Este guia mostra por onde esse dinheiro passa e como pedir o número.

Quem paga o assessor

O assessor de investimento não trabalha para você no sentido contratual. A Resolução CVM 178 o define como quem atua “sob a responsabilidade e como preposto” de um intermediário, ou seja, de uma corretora ou banco (art. 2º, I). Ele capta clientes, recebe e transmite ordens e presta informações sobre os produtos desse intermediário (art. 3º).

Por isso o dinheiro do assessor vem da corretora, e o dinheiro da corretora vem dos produtos que você compra. Um dos escritórios avaliados, a SVN, descreve assim no próprio site: no modelo de comissionamento, o assessor ganha uma comissão que “vem de parte da receita de corretagem, taxas de administração de fundos e outros produtos financeiros”, e ela “varia de acordo com o produto escolhido”.

As quatro camadas onde o custo fica embutido

A Resolução CVM 179, que incluiu um capítulo sobre remuneração na norma das corretoras, lista as formas de remuneração que a corretora precisa descrever ao investidor (art. 26-C). As que mais pesam na assessoria são quatro.

Corretagem

A taxa cobrada por operação na bolsa. Ela aparece na nota de corretagem, mas quase ninguém soma ao longo do ano. Quanto mais operações, mais receita. A CVM cita o “incentivo para recomendar operações a clientes em virtude do recebimento de remuneração por meio de taxa de corretagem” como conflito de interesse a ser descrito (art. 26-D, I).

Taxa de distribuição

Quem emite um produto paga ao distribuidor para colocá-lo nas carteiras. A política de remuneração publicada pela corretora da Monte Bravo dá um exemplo concreto: no mercado primário de crédito privado, ela “recebe um fee da empresa emissora, conforme prospecto da oferta”. Você não vê a cobrança na sua conta, porque ela é paga por quem emite o papel.

Rebate

Parte da taxa de administração de um fundo que o gestor devolve a quem distribuiu as cotas. A taxa de administração sai do patrimônio do fundo, que é seu. O rebate é a fatia dela que remunera o distribuidor enquanto você continuar no fundo.

Spread

A diferença entre o preço que a corretora paga por um título de renda fixa e o preço pelo qual vende a você. Também entra na lista da CVM (art. 26-C, IV). A mesma política da Monte Bravo descreve spread no crédito privado do mercado secundário e nos produtos estruturados. É a camada mais difícil de enxergar: a taxa que você recebe já vem com o spread descontado.

Um exemplo, com números hipotéticos: você aplica R$ 200 mil num fundo com taxa de administração de 1% ao ano. São R$ 2 mil por ano saindo do seu patrimônio. Se parte dessa taxa volta ao distribuidor como rebate, é dali que sai a remuneração da corretora e do escritório por aquele produto, enquanto o dinheiro ficar lá.

O que dizem os sites

Três escritórios avaliados no ranking descrevem o custo da assessoria assim:

  • FAMI Capital: “Os serviços de assessoria da Fami Capital são gratuitos. Você não será cobrado para ter acesso a um atendimento estratégico e personalizado.”
  • Manchester: fala em “atendimento humanizado, gratuito e seguro”.
  • Renova Invest: descreve a assessoria como “sem custo direto para você”.

A expressão da Renova é a mais precisa das três: admite que existe custo, só que indireto. Nenhuma delas diz quanto é. Nas três fichas, isso pesa em transparência de custos.

O que você tem direito de saber

Você não depende da boa vontade do escritório. Há três obrigações na norma:

  1. O assessor descreve a remuneração quando você pede, “incluindo valores ou percentuais efetivamente praticados” e até adiantamentos recebidos da corretora (Resolução CVM 178, art. 23, § 1º, III e § 2º).
  2. A corretora informa a remuneração no momento da ordem, com valores ou percentuais daquele produto, no mesmo ambiente em que você transmite a ordem (Resolução CVM 179, art. 26-E).
  3. A corretora envia um extrato trimestral com o total que ganhou com os seus investimentos, separando a parcela que coube aos assessores (art. 26-F).

O guia sobre a Resolução CVM 179 detalha cada uma e mostra como pedir.

Como fazer a conta

Peça ao escritório, por escrito, quanto a corretora e o escritório receberam no último ano com a sua carteira. Some a esse número a taxa de administração dos fundos que você tem e divida pelo patrimônio. O resultado, em porcentagem, é o custo anual real da assessoria mais produtos. O guia de custos mostra a mesma conta para consultorias, o que permite comparar os dois modelos lado a lado.

Assessoria paga por comissão não é um modelo ruim. É um modelo que precisa ser declarado. O ranking de assessorias avalia justamente isso: quem publica a política de remuneração, quem oferece opção por taxa e quem devolve o rebate. Para entender a outra ponta, veja como o assessor de investimentos ganha dinheiro.

Perguntas frequentes

Se não pago nada direto, por que me importar com quanto o assessor ganha?

Porque o dinheiro sai da sua carteira do mesmo jeito, só que por dentro do produto. E porque produtos diferentes remuneram de forma diferente, o que pode influenciar a recomendação. A própria CVM lista esse incentivo entre os conflitos de interesse que a corretora deve descrever.

O assessor é obrigado a me dizer quanto ganha?

Sim, quando você pede. A Resolução CVM 178 manda o assessor descrever, sempre que solicitado, como é remunerado pelos produtos e serviços, incluindo os valores ou percentuais efetivamente praticados.

Existe assessoria que cobra taxa em vez de comissão?

Existe. No modelo fee-based o cliente paga uma taxa sobre o patrimônio e, em alguns casos, recebe de volta as comissões dos produtos. O guia sobre assessoria fee-based explica como funciona e o que conferir.

Quando o site diz "sem custo direto", isso está errado?

A expressão é mais precisa que "gratuito", porque reconhece que existe custo, só que indireto. Ainda assim, não diz quanto é. Esse número você precisa pedir.

Fontes e referências

  1. Resolução CVM nº 178, de 14 de fevereiro de 2023 — assessores de investimento consultada em 07/10/2026
  2. Resolução CVM nº 179, de 14 de fevereiro de 2023 — remuneração e conflitos de interesse (arts. 26-A a 26-G da Resolução CVM 35) consultada em 07/10/2026
  3. FAMI Capital — assessoria consultada em 07/10/2026
  4. Manchester Investimentos — sobre nós consultada em 07/10/2026
  5. Renova Invest — soluções consultada em 07/10/2026
  6. Monte Bravo — política de transparência da remuneração consultada em 07/10/2026
  7. SVN Investimentos — como um assessor de investimentos ganha dinheiro consultada em 07/10/2026

Quem assina esta página

O conteúdo do Avaliarei é informativo e não constitui recomendação de investimento. Avaliamos empresas, não produtos, e nenhuma nota leva em conta rentabilidade passada. Leia o aviso legal completo.

Buscar no Avaliarei