Single ou multi family office: custo, independência e escala
Duas formas de montar a mesma coisa
O trabalho é parecido: cuidar de investimentos, sucessão, governança e da parte tributária de uma família, com um ponto único de coordenação. O que muda é quem divide a conta.
- Single family office (SFO): uma estrutura dedicada a uma família. Equipe própria, sistemas próprios, e a família banca tudo.
- Multi family office (MFO): uma empresa que atende várias famílias e reparte entre elas o custo de equipe, tecnologia, compliance e pesquisa.
Se você ainda está entendendo o conceito, comece por o que é family office.
Custo
No single family office
O custo é quase todo fixo: salários de quem decide sobre investimentos, de quem cuida de controles e relatórios, sistemas de consolidação, auditoria, assessoria jurídica e contábil. Ele não cai se a carteira cair. Por isso o SFO só se paga a partir de um patrimônio grande o bastante para que esse fixo, dividido pelo total, fique abaixo do que a família pagaria a um MFO.
Um exemplo, só como ilustração: se a estrutura custa R$ 3 milhões por ano e o patrimônio é de R$ 300 milhões, o custo é de 1% ao ano. Com R$ 1 bilhão, cai para 0,3%. A conta é simples; difícil é estimar o fixo com honestidade, incluindo o que costuma ser esquecido, como tecnologia e substituição de pessoas.
No multi family office
A família paga uma taxa, normalmente um percentual sobre o patrimônio acompanhado, às vezes com parcela de performance. Os valores publicados pelas casas que avaliamos estão em quanto custa um multi family office.
Independência
É tentador achar que o single é automaticamente mais independente, porque responde a uma família só. Ele elimina um tipo de conflito, o de dividir atenção e oportunidades entre clientes. Mas não elimina o principal: a estrutura continua escolhendo bancos, gestores e produtos, e pode ser remunerada por eles.
No multi, a pergunta é a mesma, com um item a mais: quem são os donos? Um MFO controlado por uma assessoria, corretora ou banco carrega o incentivo do controlador. Entre os que avaliamos, há casos assim; estão em quem controla o seu family office.
Em qualquer dos dois, os sinais de independência são os mesmos:
- remuneração paga só pela família;
- política escrita de devolução de rebate e comissões;
- ausência de produtos próprios na carteira, ou regra clara para quando eles entram;
- controle societário sem distribuidor de produtos.
Escala
A escala é o argumento a favor do multi. Mais famílias pagam mais equipe, mais pesquisa e mais poder de negociação com bancos e gestores. O Formulário de Referência, documento que toda gestora entrega à CVM e publica no site, mostra a diferença de porte entre as casas:
- a Wright Capital declara R$ 4,33 bilhões e 76 investidores (31/12/2025);
- o family office da G5 Partners declara R$ 21,21 bilhões e 694 investidores (31/12/2025);
- a Portofino declara R$ 22,88 bilhões e 828 investidores pessoa física (31/12/2025).
Nenhum desses números é melhor ou pior em si. Uma casa menor pode dar mais atenção; uma maior, mais estrutura. O que vale saber é onde você se encaixa: o mesmo formulário, nas gestoras, traz o valor sob gestão dos dez maiores clientes. Se você seria menor que todos eles, pergunte como fica o seu atendimento.
O single family office também aparece no cadastro
Quando um SFO gere a carteira da família, ele pode se registrar na CVM como administrador de carteira, como qualquer gestora. No cadastro aberto da CVM há estruturas ligadas a grupos familiares. A Gerval Investimentos, por exemplo, aparece como gestora de carteira desde 1990, com a Grupo Gerdau Empreendimentos como sócia, segundo o cadastro consultado em 07/10/2026. O cadastro não informa se uma empresa atende uma família só, então a classificação como single depende de outras fontes.
Como decidir
- Patrimônio grande, complexo e concentrado numa família, com disposição para gerir uma equipe? O single pode fazer sentido. Faça a conta do custo fixo com folga.
- Patrimônio relevante, mas sem escala para uma estrutura própria? O multi divide o custo. Escolha pelo alinhamento, não pelo tamanho.
- Dúvida entre os dois? Muitas famílias começam num multi e só montam estrutura própria depois.
Os multi family offices avaliados
Comparamos os MFOs por independência, regulação, custos, equipe e serviços, com tudo conferido em fonte pública. Veja o ranking dos melhores family offices e a metodologia.
Perguntas frequentes
O single family office é sempre mais independente?
Não necessariamente. Ele responde a uma família só, o que elimina o conflito entre clientes. Mas continua escolhendo bancos, gestores e produtos, e pode receber incentivos deles. O que decide é a política de remuneração e de rebate, não o número de famílias.
A partir de que patrimônio um single family office se paga?
Não há número oficial. A conta é a mesma de qualquer estrutura fixa: some salários, sistemas, auditoria, compliance e assessoria jurídica, e divida pelo patrimônio. Se o resultado for maior do que a taxa de um multi family office, a estrutura própria ainda não se paga.
Um multi family office pode atender famílias muito diferentes?
Pode, e o Formulário de Referência ajuda a ver o perfil. Ele informa número de investidores e patrimônio sob gestão, e nas gestoras também o valor dos dez maiores clientes. Dá para estimar se você seria um cliente grande ou pequeno para aquela casa.
Fontes e referências
- CVM — Dados abertos, cadastro de administradores de carteira consultada em 07/10/2026
- Resolução CVM nº 21, sobre a administração de carteiras de valores mobiliários consultada em 07/10/2026
- Wright Capital — Formulário de Referência 2026 consultada em 07/10/2026
- G5 MFO — Formulário de Referência (maio de 2026) consultada em 07/10/2026
- Portofino — Formulário de Referência (março de 2026) consultada em 07/10/2026
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