Family office ou private banking: quem paga e que conflito cada um tem
Duas portas para o mesmo cliente
Quem acumula patrimônio relevante passa a receber duas ofertas parecidas. O banco convida para o private banking, a área que atende clientes de alta renda com gerente dedicado, especialistas e produtos exclusivos. E aparecem os family offices, que prometem cuidar do patrimônio da família como um todo. Os dois falam em atendimento personalizado e visão de longo prazo. A diferença aparece quando se pergunta quem paga.
Como cada um ganha dinheiro
Private banking
O banco pode cobrar tarifas e, em alguns casos, uma taxa de assessoria. Mas a maior parte da receita costuma vir de outro lugar: das taxas dos fundos que ele mesmo administra, do spread em títulos de renda fixa, das operações de câmbio e crédito, da comissão de produtos de terceiros que distribui. Não é segredo nem irregularidade; é o modelo de negócio de um distribuidor.
O efeito prático é que a recomendação e a venda saem da mesma mesa. O gerente pode ser excelente e honesto. Ainda assim, trabalha numa instituição que ganha mais com alguns produtos do que com outros.
Family office independente
A família paga uma taxa, em geral um percentual sobre o patrimônio, e o family office não vende produto. O ponto que fecha o modelo é o rebate, a comissão que gestores e distribuidores pagam sobre os fundos: se o family office fica com ela, volta a ter interesse na escolha do produto.
Por isso a declaração sobre rebate é a primeira coisa a procurar. Entre os family offices que avaliamos, a Wright Capital declara não ter nem vender produtos e devolver aos clientes rebates e comissões; a We Capital declara creditar rebates e comissões na carteira do cliente; a Turim declara não comercializar produtos, não receber comissões e devolver rebates integralmente.
O que diz a regulação
Quando o family office é registrado como consultoria, a Resolução CVM 19 proíbe o consultor de receber remuneração, benefício ou vantagem, direta ou indiretamente, “que potencialmente prejudique a independência” do serviço, e exige que o contrato descreva a remuneração e os potenciais conflitos. A mesma norma prevê um termo de ciência de conflito para quando o consultor ou partes relacionadas podem ser remunerados pela alocação dos recursos.
Quando é registrado como gestora, pela Resolução CVM 21, o Formulário de Referência precisa informar as formas de remuneração e o grupo econômico, com controladores e sociedades sob controle comum. É ali que um conflito estrutural aparece, mesmo quando o site não fala dele.
Family office também pode estar ligado a uma instituição
“Family office” não é garantia de independência. Há estruturas que pertencem a bancos, corretoras ou assessorias de investimento. Entre as avaliadas:
- na WHG, a XP Investimentos está entre os controladores, o grupo tem gestora e distribuidora próprias, e a empresa não declara devolução de rebate;
- na Troon Capital, o Formulário de Referência mostra a Blue3, assessoria ligada à XP, com 85,9% do capital, embora a empresa declare devolver qualquer rebate.
Nesses casos, o conflito volta pela mesma porta do private banking, ainda que com outro nome. O guia quem controla o seu family office mostra como encontrar essa informação.
Lado a lado
| Private banking | Family office independente | |
|---|---|---|
| Quem paga | Tarifas e, sobretudo, receita dos produtos | A família, por taxa |
| Produtos próprios | Comuns | Em geral, não |
| Rebate | Receita do banco | Devolvido, quando declarado |
| Escopo | Investimentos, crédito, câmbio, custódia | Patrimônio da família como um todo |
| O que conferir | Quanto cada produto remunera o banco | Política de rebate e controle societário |
As perguntas que resolvem
Faça as mesmas perguntas aos dois e compare as respostas por escrito:
- Quanto vocês ganham, em reais, com a carteira que estão me propondo? Incluindo taxas dos fundos, spread e comissões.
- Quanto dessa carteira é de produto da casa ou do grupo?
- O que acontece com o rebate?
- Quem são os controladores da empresa?
- Se eu tirar o dinheiro daqui, vocês continuam me atendendo? A resposta mostra se o serviço depende da custódia.
Usar os dois ao mesmo tempo é comum: o banco cuida de custódia, crédito e execução, e o family office cuida da alocação e do conjunto. Só não pague duas vezes pela mesma função.
Compare os family offices
O ranking dos melhores family offices mostra a política de rebate e o controle societário de cada empresa avaliada. Para os custos, veja quanto custa um multi family office.
Perguntas frequentes
Private banking é ruim?
Não. Ele oferece crédito, câmbio, custódia e acesso a produtos que um family office não tem. O ponto é saber que a recomendação vem de quem também vende, e pedir a conta de quanto cada produto remunera o banco.
Dá para usar os dois ao mesmo tempo?
Dá, e é comum. O banco fica com custódia, crédito e execução; o family office fica com a alocação e o acompanhamento do conjunto. O cuidado é não pagar duas vezes pela mesma função.
Como sei se o family office é ligado a um banco ou corretora?
No Formulário de Referência, na seção de grupo econômico, que lista controladores diretos e indiretos. Entre os avaliados, a XP está entre os controladores da WHG e a Blue3, assessoria ligada à XP, tem 85,9% da Troon Capital.
Fontes e referências
- Resolução CVM nº 19, sobre a consultoria de valores mobiliários (texto consolidado) consultada em 07/10/2026
- Resolução CVM nº 21, sobre a administração de carteiras de valores mobiliários consultada em 07/10/2026
- Wright Capital — o que fazemos consultada em 07/10/2026
- We Capital — site oficial consultada em 07/10/2026
- Turim — a Turim consultada em 07/10/2026
- WHG Capital — Formulário de Referência na CVM consultada em 07/10/2026
- Troon Capital — Formulário de Referência (agosto de 2023) consultada em 07/10/2026
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